Fúlvio Pennacchi: ” Eu amo o ser humano, na verdade eu amo o divino que o ser humano contém”

Postado em fev 28, 2014 em Blog

“Mas aí apareceu o Emendabili na minha vida. Foi assim. O Emendabili, eu já conhecia, pois, em Lucca, estudei com Antelo del Debbio, e o pai dele aqui era construtor e trabalhava no escritório ‘Ramos de Azevedo’. Esse escultor me pediu trabalhos, desenhos, aquarelas. Emendabili viu, e me pediu para ir até o ateliê dele, que justamente ficava na Rua Bela Cintra, perto do açougue. . . Quando Emendabili ganhou o concurso do ‘Monumento a Ramos de Azevedo’, ao qual também concorri, fui ao ateliê dele, mas ele não me recebeu, nunca soube porquê, e ficamos muito tempo sem nos ver. Um dia Emendabili passou em frente ao açougue, me viu de avental, de branco, olhou o brasão do açougue, as pinturas, reconheceu: – Ah, você é, então, o Pennacchi? E caiu-dos-céus. Ficou entusiasmado, mostrei minhas pinturas e desenhos, mostrei um belo ‘São Francisco de Assis’ – santo pelo qual tenho predileção, até hoje – e a uma ‘Vida de Cristo’. Emendabili se entusiasmava, e, depois, passou a vir diariamente ao açougue, falar comigo, trocar idéias, ver meus trabalhos, e ele, sem exagero, virou até místico com minhas pinturas religiosas. . . Ele me arranjou um lugar de professor de desenho no Dante Alighieri, e usei o ateliê dele para trabalhar. Colaborei com Emendabili em projetos de túmulos em vários projetos urbanísticos”.

Fulvio Pennacchi, foi um desenhista, pintor, muralista e ceramista ítalo-brasileiro. Nasceu na Itália, na Villa Collemandina, Garfagnana Toscana, no dia 27 de dezembro de 1905. Por volta de 1924, mudou-se para a cidade de Lucca onde iniciou sua formação artística no ano de 1928 no Régio Instituto di Belle Arti, onde teve aulas com o pintor Pio Semeghini. Foi integrante do Grupo Santa Helena, juntamente com Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Aldo Bonadei, Alfredo Rizzotti, Mario Zanini, Humberto Rosa e outros.

Sua pintura é sensível e pessoal, de modo especial na interpretação dos grandes temas bíblicos e da vida dos santos, em razão de uma infância marcada por sólida educação religiosa católica, e na evocação do mundo caipira.

De sólida formação artística e conhecedor de várias técnicas, Fulvio Pennacchi não se deixou influenciar pelas diversas correntes da história da arte, mantendo-se fiel ao figurativismo.

Em “Figura de Homem”, percebe-se que ainda há uma ligação muito forte com o aprendizado acadêmico. Predomina o ocre, cor que marcou grande parte da sua produção, conferindo ao tema um tom de sobriedade. Autodidata na pintura em afresco e em cerâmica, foi considerado um grande muralista pela crítica. Executou diversos painéis para residências particulares, prédios oficiais e igrejas, registrando temas religiosos e temas ligados ao seu novo mundo.

Em 1929 Fulvio Pennacchi revolveu vir para o Brasil e passou a fixar sua residência na capital paulista, onde começou a trabalhar em diversas atividades para sobreviver que vão desde dar aulas no Colégio Dante Alighieri até ser dono de um açougue, até que por volta de 1933, foi descoberto casualmente pelo escultor Galileo Emendabili que ficou curioso com o incrível afresco que decorava o seu estabelecimento comercial. Logo em seguida passou a colaborar com o escultor Emendabili na execução de projetos como o “Monumento em Homenagem aos Mortos na Revolução Constitucionalista de 1932″, além de outros trabalhos do seu atelier. Em 1935, participou do Salão Paulista de Belas Artes, trava amizade com Francisco Rebolo (1902 – 1980) e passa a frequentar seu ateliê, no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé.

Pennacchi participou de diversas exposições, dentre as mais importantes está ‘’ O Grupo Santa Helena – 30 anos depois” que levou toda a sua obra desenvolvida no período entre 1965 a 1972 a conhecimento publico. E, dentre todas as exposições que participou coletiva e individualmente, e com todos os livros que foram lançados sobre suas obras, marcou a história da arte brasileira. Com seu legado construído, Pennacchi morreu no dia 5 de outubro de 1992, aos 87 anos de idade., deixando-nos diversas decorações em Mural, afrescos e um grande número de pinturas com temas populares, retratando camponeses, pescadores, as festas populares e imagens religiosas.

 

‘’Com uma expressão mística indiscutível, visível mesmo em suas telas de gênero diverso, em suas paisagens até de um primitivismo muito puro. Fulvio Pennacchi é dono de uma técnica segura em que predominam o claro-escuro e as linhas perpendiculares: sabe usar com felicidade das deformações nobres, o que dá a seu desenho a melancolia e a quietude da presença de Deus”. (Sérgio Millet)

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Fúlvio Pennacchi – Vida de Caiçara – Óleo sobre eucatex – 30×40 cm – a.c.i.e

Obra que compõe o acervo da Galeria Victor Hugo

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